Trabalhadores bem protegidos

Trabalhadores bem protegidos

Data: 11/04/2011

Apesar de muitas empresas no Brasil adotarem medidas preventivas, números de doenças e acidentes laborais ainda assustam. Para lidar com isso, a segurança do trabalho se apresenta como tarefa essencial e transdisciplinar

O trabalho da técnica em enfermagem e segurança do trabalho Magnólia Vieira, 56 anos, vai da atenção ao ânimo dos funcionários de uma empresa à postura deles ao sentar. “A gente anda com aquele olhar de varredura, chega até a pecar, às vezes, por excesso de cuidado”, conta a também professora que, após 23 anos atuando com saúde ocupacional no Hospital Regional de Ceilândia, hoje dá aulas, treinamentos e palestras na área. Quando começou a se interessar pelo assunto, na década de 1970, a preocupação com acidentes e doenças relacionadas ao ambiente corporativo era pequena, bem como o número de profissionais dedicados ao tema. Essa situação, contudo, tem mudado nos últimos anos e aberto um novo e interessante nicho para enfermeiros, médicos, engenheiros e técnicos.

“O mercado está se tornando mais amplo e diversificado, pois se trata de um conjunto de ações voltadas à preservação da qualidade de vida e do meio ambiente”, explica o consultor em saúde e segurança do trabalho da Medline Total Ocupacional, Clóvis Tedoldi. Os bons resultados apresentados pelas empresas que saíram na frente e passaram a adotar sistemas de gestão preocupados com os servidores têm levado a uma difusão dessa política na economia brasileira.

Uma mudança, diz o especialista, com reflexo no bolso dos profissionais que lidam com o bem-estar no ambiente corporativo. Atualmente, engenheiros e médicos do trabalho ganham em torno de R$ 4 mil, enquanto o contracheque dos técnicos de segurança fica em torno dos R$ 1,5 mil. Esses valores, no entanto, tendem a subir, diz Tedoldi, que justifica: “Estamos falando de uma nova fase de conscientização do empresariado, que está descobrindo que uma empresa de excelência se faz com funcionários saudáveis, bem cuidados e protegidos”.

Desafios
O cuidado com a mão de obra brasileira foi até tema de bienal em Brasília, promovida no mês passado, pela Fundacentro – órgão ligado ao Ministério do Trabalho que lida com segurança e medicina laboral. Com debates e exposições, o evento discutiu os grandes desafios no setor, que, segundo o presidente Eduardo Costa, são muitos. “Os problemas estão crescendo, porque há mais empregos, novas tecnologias e um grande segmento informal”, diz, ao lembrar o sofrimento dos muitos trabalhadores doentes e acidentados no país, além do prejuízo que eles geram para a Previdência: dados do INSS mostram um gasto anual de R$ 14,20 bilhões com pagamento de benefícios e aposentadorias para as vítimas dos trabalhos que executam.

Os números no Distrito Federal, assim como os do Brasil inteiro, são alarmantes. No último levantamento estatístico da Previdência Social, realizado em 2009, foram registrados 9.144 acidentes e casos de doenças do trabalho em Brasília, dos quais 20 resultaram no óbito dos servidores. Enquanto isso, em todo o Brasil, foram 723.452 ocorrências, com 2.496 mortes. Números tão elevados assim mostram que o problema da segurança no dia a dia dos empregados país afora não está restrito a um setor da economia.

Historicamente, a construção civil somou a maior quantidade de feridos no ambiente de trabalho, já que a atividade deixa muitos trabalhadores expostos a situações de risco nos canteiros de obra. Mas, segundo o presidente da Fundacentro, a cada dia, os funcionários de ramos aparentemente seguros sofrem mais com lesões e patologias por conta das funções que exercem. “A grande massa de acidentes hoje está nas micro e pequenas empresas, que recebem menos atenção governamental. O setor de serviços também tem tido números muito altos”, expõe Costa.

Diante desse quadro trágico, manter gente capacitada para tratar da saúde e segurança dos recursos humanos de uma empresa torna-se cada vez mais necessário. E isso não é atividade para uma pessoa só, explica o presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, Carlos Campos. “Trata-se de uma tarefa transdiciplinar, não conseguiríamos bons resultados se, por acaso, tivéssemos somente um médico do trabalho na gestão”, ressalta, ao listar as especialidades básicas no processo de vigilância da saúde de uma equipe: “Temos, no mínimo, medicina e enfermagem do trabalho, psicologia, fonoaudiologia etc”.

Costa explica que as funções do profissional que zela pela integridade das pessoas em uma corporação não se restringe ao diagnóstico das enfermidades. Também é atribuição dele o tratamento e a reabilitação do trabalhador, sem se esquecer dos “procedimentos que possam conscientizar sobre hábitos saudáveis e prevenção de doenças comuns em nosso meio, como hipertensão, diabetes e obesidade”.

O cuidado com a saúde está intimamente ligado à atenção com a segurança. Por isso, os times de médicos e enfermeiros ocupacionais precisam atuar em sintonia com outro grupo, o de engenheiros e técnicos. São pessoas responsáveis por lidar com ergonomia – que trata da interação do homem com os equipamentos, como a postura de uma pessoa ao usar o computador -, temperatura do local de trabalho e intensidade dos ruídos. Além disso, elas verificam o uso dos equipamentos de segurança, a exemplo de luvas e capacetes, e até se preocupam com o emocional dos funcionários: analisam se a equipe está motivada para realizar suas tarefas ou não.

Fonte: Correio Brasiliense

Por |2011-04-11T17:06:09-03:0011 de abril de 2011|Notícias|